Domar a Língua: A Luta Silenciosa do Cristão

Domar a Língua: A Luta Silenciosa do Cristão

Domar a Língua: O Combate Esquecido

Costumo ler, antes de dormir, os escritos espirituais que alimentam a alma.

Em uma dessas noites, deparei-me com um trecho que falava sobre a língua — e ali, sem que eu esperasse, fui confrontado.

Vi espelhos. Vi falhas. Vi realidades que eu não queria ver. E entendi: estamos negligenciando uma luta essencial. Neste texto, quero refletir sobre esse combate cotidiano e quase invisível: o desafio de domar a língua. Para isso, vamos dividir o caminho em duas partes: primeiro, a forma como enxergamos os outros; depois, o que dizemos sobre eles.

1. O Julgamento Começa nos Olhos

Antes de falar mal, nós pensamos mal. E antes de pensar mal, enxergamos mal. Somos rápidos em interpretar atitudes, julgar ações, atribuir intenções.

Basta uma falha, um gesto mal entendido e logo reduzimos uma pessoa a um erro. Mas que autoridade temos para isso? A verdade é que não temos acesso à totalidade da vida de ninguém.

Não conhecemos as dores, as quedas, as lutas internas. Julgar é fácil quando olhamos de longe, mas é quase sempre injusto. E mais: nossa visão não é apenas limitada, é ferida. O pecado original nos deixou com um desejo oculto de “ser mais”.

Uma certa “superioridade moral” que, em vez de nos elevar, nos transforma em fariseus disfarçados de zeladores da verdade. Somos ágeis para pedir misericórdia. Mas lentos em oferecê-la. Ávidos por perdão quando caímos. Implacáveis quando o outro tropeça.

Se quisermos crescer espiritualmente, o primeiro passo é curar o olhar. Quando surgirem pensamentos de julgamento, digamos interiormente: “Não tenho as faculdades necessárias para julgar. Só Deus as tem. Logo, não julgarei.”

Isso não significa ser ingênuo ou cego diante do mal. Há momentos em que é preciso discernir, identificar riscos, tomar distância. Mas é diferente condenar uma ação e condenar uma alma. O primeiro pode ser necessário. O segundo… é usurpar o trono de Deus.

2. O Poder das Palavras: Semente ou Veneno?

A boca fala do que o coração está cheio, e o que carregamos dentro, cedo ou tarde, vaza pela língua. A palavra é poder: pode erguer, pode esmagar, pode curar, pode ferir. Às vezes, em poucos segundos, dizemos algo que o outro vai carregar por anos. E o pior: muitas vezes nem temos certeza do que dizemos. É apenas opinião. Fofoca. Suposição. E mesmo assim, deixamos sair da boca como se fosse verdade.

Já reparou como algumas palavras só são ditas quando “ninguém está ouvindo”? Esse é o sinal de que já deviam ser caladas. Mesmo que o outro não ouça — Deus ouve. Não há canto escondido. Não há sussurro perdido no vento. Se não falamos algo na presença de Deus, então não deveríamos falar de jeito nenhum. Muitas conversas se tornam verdadeiros tribunais, o réu, ausente, não tem direito de se defender.

Somos os acusadores. Os juízes. E os algozes  tudo ao mesmo tempo. E o mais grave: muitas vezes fazemos isso em nome de “preocupação”, “opinião” ou “desabafo”. Mas a pergunta que devemos fazer é simples: “Essa palavra vai edificar ou destruir? Vai ajudar ou ferir?”

Se a resposta não for clara, então a melhor resposta é o silêncio. “E quando não for possível ajudar com a palavra… cala-te.” O silêncio, nestes casos, é forma concreta de caridade.

3. Misericórdia e Justiça: Uma Palavra Equilibrada

Precisamos ter ainda mais cuidado ao falar sobre quem está consagrado a Deus  padres, religiosos, bispos. Não porque estejam acima do bem e do mal, mas porque representam o Sagrado diante do povo. Um comentário precipitado sobre um sacerdote pode não abalar a nossa fé… Mas pode destruir a fé de alguém mais frágil. E, ao contrário do que se pensa, escândalo não é “falar do pecado alheio”Escândalo é derrubar um irmão na fé por causa do que dizemos. Se um padre cair, ele não deixa de ser pai. A atitude certa é rezar por ele, não apedrejá-lo. Corrigir, se for o caso — mas sempre com reverência e amor. Como filhos que defendem a honra do pai, mesmo ferido.

4.  Quando Falar se Torna Caridade

Existe, sim, uma maneira santa de usar a língua: a correção fraterna. Se, ao invés de espalhar críticas, você procurar a pessoa com espírito de caridade, com desejo sincero de ajudá-la então a palavra se transforma em serviço. Falar diretamente, com amor, é difícil. Mas é justo, mesmo que o outro não goste, se sua intenção for pura, Deus se agradará.

Por outro lado, se usamos nossas palavras apenas para desabafar, para provar que temos razão, para nos sentirmos melhores… já caímos no pecado. A correção é uma cruz. Não um microfone, quem fala para se exibir, já perdeu o mérito.

Arregace as Mangas e Lute

Domar a língua é uma luta diária, silenciosa e árdua. Mas é uma das mais necessárias. Quem não domina a própria boca, não domina mais nada. Quem semeia palavras venenosas, colhe solidão e ruína. E quem faz da língua um instrumento de edificação, colabora com o Reino de Deus. Sim, é difícil. Sim, todos caímos. Mas a resposta não é o conformismo.=É a vigilância.

Arregace as mangas. Assuma o combate. E transforme sua língua de maldição… em bênção.

 

Diego Silva – Amigo Católico

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